É para isto que a noite finda: finda a noite e a madrugada se arrasta para minha cama, deita ao meu lado, rouba minha coberta e não me deixa dormir. Sou uma refém da manhã sempre sequestrada à noite; sei, de antemão, que não irei dormir e não, não me falta sono. Eis o grande antagonismo da minha solícita agonia: tenho sono e não durmo, estou cansada e não durmo, o travesseiro é macio e não durmo: falta-me sonho; falta-me o corpo quente, próximo, palpável; faltam-me as pernas enroscadas; falta-me o mormaço das costas nuas; careço, da nuca beijada pelo acaso da boca, da tua mão recostada na barriga que valsa. A madrugada é uma reprise de lembranças; sou como um recapítulo, uma revisão.
Concluo:
O amor.
O amor.
Os olhos são lindos e a boca é gostosa e o cheiro é maravilhoso e o cabelo é macio e a pele é quente e o coração é puro e o toque é firme e o abraço é protetor: e eu sou clichê.
Sua se for.
