domingo, 22 de dezembro de 2013

Se eu corro

Postado por Marcella às 14:53 0 comentários
Eu quero guardar teu beijo
na concha das mãos
teu cheiro eu levo feito mancha na roupa
que eu não lavo, não

Sou alvo pros teus olhos claros parecidos
com essa estação
e adoro os efeitos sonoros de quando você sussurra
absurdos no ouvido do meu coração

Se eu corro
eu corro demais só pra te ver, meu bem
é que eu quero um socorro


Romance em doze linhas

Postado por Marcella às 01:27 0 comentários

quanto tempo falta pra gente se ver hoje
quanto tempo falta pra gente se ver logo
quanto tempo falta pra gente se ver todo dia
quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre
quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto tempo falta pra gente se ver às vezes
quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos
quanto tempo falta pra gente não querer se ver
quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu




(Bruna Beber)

sábado, 14 de dezembro de 2013

É fácil

Postado por Marcella às 13:54 0 comentários
É fácil colocar o dedo na cara
e chamar de ladrão.
Brandar que ''ladrão bom é ladrão morto'',
mas vai saber
se ele não roubou por fome.
Não, não digo que isso justifica
ou que defendo o crime,
 a violência.
Vá reconhecer e culpar o verdadeiro responsável
pelo embrião dessas mazelas.


É fácil chamar o índio de preguiçoso.
Experimente ser expulso da sua casa,
ter sua cultura exterminada,
veja seus irmãos serem assassinados
pelo frio calibre do ''homem civilizado''.
Não é tão fácil né?

É fácil enxotar o negro.
Em uma sociedade de privilégios brancos,
onde não se tem espaço,
saúde, educação, emprego, respeito
pra esses cidadãos oprimidos diariamente.


É fácil sentir o cheiro de comida, da casa limpa, da cama macia.
É fácil garantir o funcionamento de todos os ''apetrechos babilônicos''
e não lutar pelo garantia do bem comum,
não lutar pelo coletivo.


É fácil consumir uma infinidade de coisas
que, realmente, não tem necessidade.
É fácil ignorar o grito de socorro da natureza.
É fácil apoiar um sistema que fode com as nossas vidas,
com o nosso bolso, com a nossa dignidade.

É fácil esquecer o outro
porque colocaram em nossas cabeças
a tal da competitividade.
Basearam nossas relações
na lógica do mercado.

É fácil ler isso tudo
e se dizer saturado dessa realidade.
É fácil apontar os dez dedos,
fundamentar-se em ideias rasas
e vim falar de senso de justiça
quando não é você
quem está no batente.

Abra a cabeça.
Enxergue.
Não é fácil.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Postado por Marcella às 22:47 0 comentários
"eu que me apaixono todos os dias,
pelos mesmos, pelos outros.
não exigir nada de ninguém.
quero é comer as vírgulas e escrever
e falar como as coisas me aparecem
sem filtro sem máscaras sem medo."

Dogma

Postado por Marcella às 22:31 0 comentários
O que fazer na cerração?
Fechar os olhos e seguir
Por que não andar na contra-mão
Se prá morrer basta estar vivo?
Será virtuoso o sermão
Se prá fazer basta dizer?
Não diga que estou errada
Falo de coisas proibidas
Pecados, padres, perdição
E as beatas rezadoras
Querendo mais e não querendo
Pedindo mais numa oração!

Foi lá por 85

Capítulo 1

Postado por Marcella às 22:07 0 comentários
Enquanto ele busca o descanso, eu agito. Enquanto ele cala e me olha, eu falo (nada com nada) e sinto vergonha. Enquanto ele tenta me entender, eu também tento entender qual é a dele. Enquanto ele toma uma dose, eu tomo duas - e exagero -. Finalmente, quando o coloco para dormir, eu reflito…

E são noites como essa – vendo como tudo mudou de uma hora pra outra - que me fazem pensar na vida. Mudança que a gente vê e pega. Tátil. Porque tem que ser.

Agarrei o novo… E que braços ele tem. Aquele que pega forte e me dá segurança; sabe? Decidi beijá-lo nas costas, lentamente, passando a unha devagar – quis devorar cada pedaço, mas ainda não chegou a hora. Tá cedo. E, em cada respiração conjunta, compassada, senti paz. Meu coração colheu uma esperança a qual foi plantada na primeira pegada de mão. Saudade de ser feliz. Que bom que ele encontrou meu sorriso e colocou de volta no meu rosto. Momentos depois, nos acalmamos. Ele pousou no meu peito, achou um descanso logo após minha oração e o meu boa noite, e adormeceu. Depois de certo tempo, fechei os meus olhos com a mesma certeza de um repouso pleno. Algumas horas depois… Eis que já era dia. Hora de acordar! A vontade era de ficar, de encontrar minha paz, de novo, em seu abraço. Mas não deu.

As coisas novas acontecem, embora saibamos que logo elas ficarão velhas. Porém, que o encanto não acabe. Um hiato de menos de uma semana nos separa..

Hoje, sem ele, senti que alguém fumava perto de mim. Quando reparei, vi que estava sendo tragada… Pela saudade.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Postado por Marcella às 02:25 0 comentários
O relógio de pulso é a algema dos escravos do tempo.
Liberte-se de suas amarras, espírito de luz.
A vida é mais
e o tempo é arte
e você pode viver.

Fato

Postado por Marcella às 01:01 0 comentários
É tanta poesia que não cabe em mim.

EU

Postado por Marcella às 00:58 0 comentários

Eu não sou o que pensam de mim,
O que falam de mim,
O que vêem em mim,
O que projetam em mim...

Eu não sou os rótulos que me deram,
Nem os papéis que assumi,
Nem as histórias que vivi,
Nem as lembranças do que fui...

Eu não sou a personalidade que visto
ou já vesti,
A profissão que exerço ou já exerci,
Os bens que adquiro ou adquiri,
Nem os conhecimentos ou os títulos que tenho ou tive,
Nem tudo que abri mão,me tomaram, dei ou perdi...

Eu não sou as imagens que inventam pra mim,
Nem as que eu mesma invento.

Não sou meus acertos,
Nem meus erros
Nem meus caminhos,
Nem minhas alegrias
Nem minhas opções,
Nem minhas desilusões...

Não sou nenhuma definição de mim
Nenhum rótulo,
Nenhum protótipo,
Nenhum estereótipo.

Não sou igual nem diferente de ninguém.
Nem superior, nem inferior
Sou única!
Sou uma e sou una!
E sou toda diversidade que há na unidade

Não sou as mentiras que contam sobre mim
Nem as que me contaram
Nem as que eu me contei

Não sou nenhum retrato do passado
Nenhum projeto do futuro
Nenhuma ideia ou conceito cristalizado
Nenhum ideal ou sonho não realizado.

Não sou melhor, nem pior
que ninguém -
Sou incomparável!!
Não sou muito, nem sou pouco -
Sou imensurável!!

Não sou grande, nem pequena -
Sou infinita!
Não sou qualquer uma, nem sou muito importante -
Sou simplesmente humana - como todos são.

Não sou nenhum juízo,
Nenhum pecado,
Nenhuma definição
Nenhuma condenação

Não sou idealista, nem sonhadora
Nem materialista, nem doutora
Sou apenas tudo que sou!

Não sou minhas qualidades
Nem meus defeitos
Nem minha aparência
Nem minha interioridade

Não sigo ídolos, nem modelos
Nem santos, nem deuses
Nem mestres,nem salvadores
Sigo a consciência que me guia, protege e ilumina.

Não sou anjo, nem demônio
Nem louca, nem normal;
Nem comum, nem extraordinária-
Sou Universal - e com ele, solidária!

Não vivo na multidão
Nem no isolamento
Nem na correria
Nem na acomodação.

Vivo como posso,
quero,
me permito,
sinto,
penso
faço
e consigo

Não vivo na miséria, nem no luxo
Sou independente de um monte de coisas
De outras, por hora, dependo.
E acredito na saudável interdependência
entre todos e de tudo.

Minha autoridade é minha maturidade.
Meu compromisso, a verdade.


Não alcancei glória, nem fama,
nem fortuna - por enquanto.
Aprendi a não ter, nem ver, fracassos.
Apenas tive, tenho e terei sempre aprendizados.

Tenho os pés no chão, sim.
Porém, no mais belo
e no mais profundo que há em mim.

EU SOU ASSIM....

Sem segredos,
sem medos,
sem começo,
meio
e fim.

Poesia, enfim!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Quando o sexo não é intimidade

Postado por Marcella às 11:32 0 comentários
Intimidade não se consegue numa noite de sexo. Por maior que seja a troca, o prazer, a peripécia, o orgasmo. Intimidade é construída diariamente, na resolução de um conflito, na confissão de um trauma, na celebração das alegrias, na torcida por uma vitória, na confiança de partilhar os sonhos mais íntimos. E isso demanda tempo, investimento voluntário, e o desejo de comprometimento. Numa noite de sexo por sexo o que se consegue é uma espécie de alívio fisiológico, uma injeção efêmera de hormônios que causam prazer, ou nem isso. Sexo por sexo poderá ser tão saudável quanto sexo com amor, mas não promove intimidade. A carícia de quem ama alimenta os seus campos sutis, sua alma; a carícia de quem vivencia apenas o desejo alimenta o corpo.
(Uma luz ilumina a superfície, a outra penetra.) 
Penetrar um corpo numa relação sexual não necessariamente significa comunhão com ele. E o prazer, na ausência da comunhão, é muito mais solitário e individual, mesmo que simultâneo.Penetrar um corpo com amor é ter vontade de perder-se e a confiança de que se estará seguro nesta entrega de todos os sentidos. Poderá haver tanta poesia numa relação quanto em outra, mas intimidade não. Poderá haver tanta diversão e desejo em uma como em outra, mas intimidade só se consegue com o antes e o depois em consonância com o durante. Sexo sem amor pode ser tão gostoso quanto com. Mas poder dizer um euteamo sonoro, com toda a força do teu coração, naquele momento em que alguém se funde a você, é um orgasmo-bônus que só a intimidade proporciona.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Uma intertextualidade com um texto de Caio F.

Postado por Marcella às 14:13 1 comentários
Renunciar a algo que amamos muito e que desejamos com toda a força do coração é uma das decisões mais cruéis de se tomar que conheço. Porque a perda equivale a uma morte dupla: morrer para alguém e matar a pessoa na gente. É como se sobrasse por dentro apenas um casarão vazio com um jardim morto. E, de repente, tudo tão subitamente anoitecido sem previsões de dia novo. É um caminhar lento e arrastado numa espera sombria de que as horas passem e o tempo leve essa febre alta sem medicação possível. É preciso que haja tanta paciência e firmeza por dentro pra não entrar em desespero, que a sensação que se tem é de estar meio fora do ar, com tanto esforço. E até chorar fica difícil, teme-se que nunca mais o choro cesse. Há muitas perdas quando se termina algo que não se queria ter terminado: muda-se a autoimagem, alegrias ficam suspensas, sonhos desaparecem por um tempo e nenhuma cor na paisagem. O cotidiano fica obscurecido por aquela lacuna aberta no meio do que era a parte mais interessante dos dias. Com o tempo, você analisa que abrir mão de algo muito importante, só se faz quando se tem um motivo maior que esse algo: seja um propósito, uma crença, um valor íntimo, uma obstinação qualquer que te oriente para essa escolha que já se sabia tão dolorosa. É um sacrifico voluntário por algo mais pleno, mais grandioso em Beleza. E, nestas análises, você descobre outras perdas que são positivas: perde-se também a ansiedade, a insegurança e a ilusão. E você aprende a recomeçar agradecendo por vitórias tão pequenininhas... Como quando é noite e antes de dormir você se enche de gratidão: “obrigada, porque é noite e eu tenho o sono...Que venha um sonho novo, então.”


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

desvario

Postado por Marcella às 19:39 0 comentários
Ele colocou os olhos em cima dos meus e sussurrou como um deus grego da mais pura tranquilidade: calma! Sabe quando você tem a sensação de que o outro sabe exatamente como guiar, dar uma direção naquela determinada hora/momento? Pois bem. Encarei como um pedido porque 'controle' não exista em minha atmosfera. Mal ele sabia que aquelas mãos não sabiam nada sobre, nem onde se metiam pela primeira vez. Estas não imaginavam como era a urgência do toque, do contato, do simples fato de gostar daquilo, do simples ato de se atritar dois corpos em um espaço tão macio. E assim seguiu,  marcado, no compasso, com um gosto amargamente-doce, com um sorriso cheio de dentes - de tirar o fôlego- que naquele instante me preencheu por inteira, colocando dentro de mim uma energia que precisava sentir, deixando comigo um pedido de quero mais.

Maquiavel republicano?

Postado por Marcella às 16:33 0 comentários
Os textos políticos do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) transformam profundamente a natureza da reflexão sobre o poder, justificando a admissão — consensual entre os teóricos contemporâneos — da originalidade de suas teses. Entretanto, o amplo reconhecimento sobre a importância de seus escritos, que se tornaram referência imprescindível aos estudos políticos posteriores,raramente é acompanhado de uma rigorosa apreciação das reflexões desenvolvidas por este autor. Assim, prevalecem noções como as de que o filósofo era intransigente partidário do absolutismo monárquico, de que exaltava a utilização da violência estatal e de que não se importava com o valor moral dos meios utilizados pelos governantes, desde que servissem à perpetuação de seu poder político. Trata-se de uma leitura parcial de sua obra, que encontra sua síntese no adjetivo maquiavélico, termo associado ao logro, ao ardil, a intenções ocultas e desonrosas.O exame atento de seus argumentos, porém, revela-nos um retrato muito distinto daquele que nos é tradicionalmente oferecido pelos manuais de história e de filosofia. O realismo político de Maquiavel conduz, isto sim, à concepção política republicana, assentada na institucionalização dos conflitos sociais e na delimitação de uma dimensão sociopolítica autônoma, regida por critérios éticos próprios. O caminho adequado à compreensão de sua teoria política tem como ponto de partida o seu realismo político, ou seja, a postura da qual derivam a identificação. do conflito como elemento inerente às relações políticas e a afirmação de uma esfera pública separada dos domínios da vida privada. O denominado realismo político de Maquiavel exprime seu empenho em desvelar a efetividade das relações sociopolíticas em suas bases históricas, renunciando, dessa forma, ao suposto idealismo das teorias então vigentes na tradição ocidental, dos antigos gregos ao humanismo renascentista. Nas filosofias políticas tradicionais, o exercício do poder era vinculado à conceituação de um corpo cívico harmônico, sendo a paz o horizonte supremo da realização política. Segundo Maquiavel, harmonia e paz são discursos completamente idealizados, que não possuem raízes no terreno histórico da humanidade. Para ele, é indispensável que a reflexão política se baseie no plano factual, isto é, nas observações das experiências concretas das sociedades humanas. Nessa perspectiva, sob as transformações da história da humanidade repousa uma natureza humana imutável, ou melhor, em diferentes épocas e sociedades, os seres humanos são sempre ambiciosos, caprichosos e egoístas. Contudo, essas características naturais dos homens não se pronunciam incondicionalmente, quer dizer, manifestam-se com maior ou menor intensidade de acordo com as ordenações sociopolíticas historicamente estabelecidas. Maquiavel, portanto, destaca a historicidade humana como um conjunto de experiências que indicam possibilidades autênticas de ação política para os homens, condutas estas que são possíveis precisamente porque situadas no solo objetivo da história e limitadas pela natureza humana. Natureza humana e história, por seu turno, ensinam que dos homens não se dever esperar a paz permanente e a harmonia sociopolítica, a saber, os conflitos são inevitáveis, e, diante dessa constatação, a melhor forma de organização política é aquela que confere às disputas sociais os canais institucionais que evitem a desagregação e promovam o bem público.Assim, qual seria essa forma superior de ordenação política? A resposta de Maquiavel aparece em seu livro intitulado Discursos, texto que compõe com O príncipe, sua obra mais famosa, o eixo de seu pensamento político. A melhor forma de estruturação política da sociedade é a república, pois esta promove maior distribuição no exercício do poder e fixa mecanismos institucionais de substituição dos magistrados, sendo estes os fundamentos necessários ao envolvimento dos cidadãos com os temas públicos e aos procedimentos criteriosos para a escolha dos representantes da autoridade estatal. Em resumo, a república, precisamente por sua organização relativamente horizontal das relações políticas, reforça o compromisso dos cidadãos com a esfera política e facilita, com seu aparato institucional, a condução virtuosa dos governantes. Dessa maneira, então, a capacidade de enfrentar virtuosamente as circunstâncias, assegurando a presença do poder público na sociedade, não depende das qualidades pessoais de um monarca, consolidando-se, isto sim, no centro do corpo cívico. Em outros termos, a virtude, sempre conceituada no enfrentamento político eficiente das adversidades, não é mais dependente dos predicados individuais de um príncipe, transferindo-se para as leis republicanas, ou melhor, a virtude torna-se menos suscetível aos arbítrios de um monarca absolutista, uma vez que consiste na ordenação política que envolve o conjunto dos cidadãos e que se baseia no exercício da liberdade cívica.  Porém, como salientamos anteriormente, o corpo cívico maquiavélico não é um conjunto harmônico e isento de conflitos, sendo, ao contrário, uma totalidade constituída pela tensão de interesses contraditórios. Dessa maneira, o regime político mais eficiente — eficiência entendida como estabilidade do poder e, consequentemente, como predomínio do espírito público — não é aquele que possa suprimir as lutas sociais — metas, segundo Maquiavel, inatingíveis justamente porque são idealistas as suas premissas. Em direção oposta, a melhor ordenação política é a república que viabiliza institucionalmente os conflitos imanentes às relações sociais entre os seres humanos. Sob esse prisma, a república facilita a demarcação de fronteiras entre a ética da esfera pública e a ética da esfera privada, sendo tal diferenciação uma das contribuições decisivas do autor florentino para o pensamento político ocidental. Afinal, Maquiavel declara que o valor da ação dos estadistas e dos cidadãos não pode ser medido por critérios de moralidade exterior à política, sendo virtuosas todas as condutas que concorrem para a permanência do poder político, mesmo que isso implique procedimentos que seriam condenáveis no âmbito das relações pessoais. Utilizando um exemplo simples e, ao mesmo tempo, esclarecedor, poderíamos dizer que, enquanto na vida privada a moral prescreve que devemos socorrer nossos amigos sempre que estiverem em apuros, na vida pública o princípio ético é outro: não é licito colocar os interesses dos amigos acima dos interesses públicos. Nesses termos, a teoria política de Maquiavel possui atualidade e, a despeito de ser passível de críticas, talvez ofereça conceitos importantes para pensarmos particularmente na realidade sociopolítica brasileira, na qual, frequentemente, a esfera pública é tratada como mera extensão dos interesses pessoais existentes na esfera privada.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

recanto da felicidade

Postado por Marcella às 21:52 0 comentários
Corre. Para.
Finge que ouve,
Mas só fala.
E são tantas vozes,
Onde uma dá risada da outra
De tão absurdo que é.
As vezes bonito,
Mas mesmo assim tudo isso
Acontece entre diferentes eus
Que já não se sabe mais quem são,
Pois por baixo da superfície,
Só um infinito colorido.
Sem forma,
Sem pertencer a esse mundo
Ou a qualquer coisa.


Então silencia...

E de repente
Lá está ela,
A felicidade!

Sorrindo e acenando
Nas coisas mais simples
Sem motivos e explicações
No mesmo novo lugar de sempre
No encontro de corações

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Encontro

Postado por Marcella às 16:32 0 comentários
Estou pensando em você e quero te ver. Admito, preciso só de você, de qualquer jeito. Nem que seja pra compartilhar o silêncio, um cigarro, uma vitamina de morango com sorvete. Mas preciso de você. Qualquer você.

Você de doce ou  implicante. Ou você alegre, me jogando no sofá como se eu fosse um dog de estimação ou uma almofada indiana. Sei lá. Invada a minha sala, o meu jeans e a minha camisa de botão. Mas, peço que se demore por aqui. Me traga uns beijos na testa, umas mordidas no canto da mão e umas lambidas na cara de quando queria me irritar na frente dos nossos amigos. Sinto falta de você, de mim e de nós.

Vez em quando, proponho a mim te esquecer. Ai, logo após uns segundos, lembro uns risinhos seus e daquelas ajeitadas de cabelo que balançavam meu mundo inteiro e acabando esquecendo o que me propus. Noutros momentos, tenho vontade de te sacudir só para tentar roubar segredos de como conseguiu me esquecer assim tão fácil. Em que médico foi? Qual remédio tomou? É comprimido ou em gotas? Quantas vezes ao dia? Fez quimioterapia? Banho de sal grosso? Sei lá. Vejo o seu sorriso por aí e teus dentes gritam que já não sou mais inquilina do teu corpo. E eu que já te vomitei como uma alcoólatra em dia de porre, cada vez mais sinto você aumentando aqui dentro nesta gravidez eterna.

Mas logo mais, quando a noite chegar, você sentirá que precisa mais de mim do que imagina. Vai jurar que não, mas no fundo, no fundo, assumirá a falta que te fiz nos seus dias. Vai dizer de todas as bandas novas que ouviu e pensou em colocar no iPod para ouvir junto comigo. Vai contar sobre as novas cidades que conheceu e sobre os cartões portais que me escreveu, mas não me enviou. Vai relembrar cada gargalhada que deu e que ficou triste logo após notar que não iria me contar o motivo da tua felicidade.

Eu tô com um tanto de novidades. Novos livros. Novos autores. Novos filmes me fazem chorar como uma menininha. Talvez, agora, lendo isso aqui ou perdido entre os cigarros, você queira voltar. Volta. E a gente prova ao mundo inteiro que em um segundo de encontro, o nosso amor cura todas as eternas horas afastados.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Celebrar

Postado por Marcella às 18:26 0 comentários
Existência muito breve para perder tempo com vergonha
Muito breve pra deixar de aproveitar com plenitude
Muito breve e frágil existência
E toda sua beleza
Na fragilidade de ser
E se desfazer
E recomeçar
E comemorar
A eterna dança dos apaixonados
Solitários caminhantes do espaço
Entre mundos vagando
Sem saber
Sem separar
E para os que não têm pressa
Mas não têm tempo a perder
Uma caminhada na rua
E muitas flores a sentir
Cheirar e sorrir
Só agradecer!!
Salve vida linda e passageira!!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

28

Postado por Marcella às 20:21 0 comentários
''Digo e repito:
uma bela capa
não vale muito
se não houver
o mero conteúdo
que encante
não só os olhos.''

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O quase é tão cheio de tudo

Postado por Marcella às 23:20 0 comentários

Ai, como dói quem espera amar. Quem dedica uma vida à disciplina da paciência, dormindo e esquecendo a tristeza, acordando e repondo a esperança, aqueles que resistem, que respeitam as pequenas alegrias porque podem ser as únicas, que não decidiram se diminuem a expectativa para sair da solidão ou aumentam as exigências para justificá-la. 

Como eu amo quem se importa em amar, apesar de tudo. Apesar de tudo.


(Carpinejar)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

12 PEQUENAS E DELICIOSAS FORMAS DE LIBERDADE

Postado por Marcella às 21:32 0 comentários
1. Ame!
2. Cultive o pensamento crítico; exercite a (sua) livre interpretação dos fatos.
3. Desligue a TV. Apenas desligue, só isso.
4. Consuma menos; e entenda aquilo que você continua consumindo.
5. Viaje e conheça lugares; mas, principalmente, conheça outras experiências de vida.
6. Comunique-se com crianças; e faça isso com atenção. Elas ainda sabem coisas que você provavelmente já esqueceu.
7. Grandes corporações: desligue-se delas; não compre delas; ignore-as.
8. Conecte-se a pessoas e estimule empreendimentos locais. Você os apoia hoje, eles te apoiarão amanhã.
9. Exercite o respeito por outras formas de vida. Sentir-se importante demais também é aprisionante.
10. Descarte padrões estéticos, sociais e morais que não te servem; você provavelmente nem se encaixa neles.
11. Existe energia vital em você; conheça-a e entenda que essa força é sua, e que não depende de algo que se compre.

[bônus] 12. Defina sua forma de liberdade.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

fato real

Postado por Marcella às 22:04 0 comentários
brigou com o namorado
passou no posto pra reabastecer
"completa, senhora?"- disse o frentista
vazia, moço, vazia
respondeu sem pensar.

domingo, 1 de setembro de 2013

bem vinda segunda-feira

Postado por Marcella às 23:00 0 comentários

 É para isto que a noite finda: finda a noite e a madrugada se arrasta para minha cama, deita ao meu lado, rouba minha coberta e não me deixa dormir. Sou uma refém da manhã sempre sequestrada à noite; sei, de antemão, que não irei dormir e não, não me falta sono. Eis o grande antagonismo da minha solícita agonia: tenho sono e não durmo, estou cansada e não durmo, o travesseiro é macio e não durmo: falta-me sonho; falta-me o corpo quente, próximo, palpável; faltam-me as pernas enroscadas; falta-me o mormaço das costas nuas; careço, da nuca beijada pelo acaso da boca, da tua mão recostada na barriga que valsa. A madrugada é uma reprise de lembranças; sou como um recapítulo, uma revisão. 


Concluo:
O amor.


Os olhos são lindos e a boca é gostosa e o cheiro é maravilhoso e o cabelo é macio e a pele é quente e o coração é puro e o toque é firme e o abraço é protetor: e eu sou clichê.

Sua se for.

Eu, apenas.

Postado por Marcella às 22:48 0 comentários
era apenas uma menina
quando saí de paulo afonso
com desespero medo e angústia
algumas calcinhas
camisas e meias
verdades

era apenas uma menina
não sabia sobre internet mar prédios hachis chopes fast food apple coletivo shopping cinema trabalho cartões de crédito cheques conta bancária táxis smartphones

era apenas uma menina
treinada em muro fruta passarinho pedra árvore barranco chuva gia barro 

era apenas uma menina
que corria como correm
que se apaixonava como se apaixonam
que chorava como choram
que sofria e vivia e sonhava

era apenas uma menina
boba inocente esperançosa
queria ganhar dinheiro e ajudar os outros
sem ambição futilidade tristeza
gastava cada trocado com a felicidade
de um geladinho uma cocada uma hora de vídeo-game um chocolate uma bala

era apenas uma menina
não queria entender o mundo
muito menos as pessoas
seus anseios seus atos suas mentiras
não compreendia
o certo o errado o que?
mas sabia tudo sobre pôr-do-sol umbu havaianas com prego pneus remendados de bicicleta algaroba gudes casas de papelão cobre quintais formigas

era apenas uma menina
olhava tudo pelo avesso
não via a flor com espinho
via o espinho com flor
procurava monstros embaixo da cama
e via fantasmas em cortinas enjaneladas
onde será que se esconde
a linha que empina o avião
no ar?

eu era apenas uma menina

eu era apenas uma menina?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Não

Postado por Marcella às 23:20 0 comentários
Não mereço preocupação forjada.
Aliás, não preciso.
Nada meia boca,
nem da boca pra fora.
Melhor se manter calado,
afinal,
quem quer ser tratado de maneira frígida ?
Se não quer se importar,
não me apareça com segundas falas ou justificativas,
não me venhas.
Eu as considero em vão.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nota

Postado por Marcella às 23:03 0 comentários
Isso de gostar de escrever, te faz criar várias páginas e esquecer a senha, bem rápido e de um dia para o outro. Mesmo anotando, acabo perdendo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Liberdade e necessidade

Postado por Marcella às 23:46 0 comentários
   É de extrema importância que você compreenda essa questão da antinomia (paradoxo) entre liberdade e necessidade. Desde criança, o homem lida com a realidade do espaço. Os pedagogos e psicólogos já produziram vários estudos sobre como se incorpora essa noção no repertório conceitual de cada um a partir das experiências concretas enquanto se lida com os objetos ao redor.

    Você já observou, por exemplo, uma criança tentando introduzir uma chupeta numa caixa de fósforos ou algo semelhante. Já na adolescência, aprende-se conceitualmente que um recipiente que contém 1.000 centímetros cúbicos não pode conter mais de 1.000 mililitros de água. Mais tarde pode-se pensar a infinitude do espaço. Entretanto, não é possível experimentar concretamente o que o pensamento acabou de conceber ou intuir. Aí está a contradição. O pensamento é livre e ilimitado, as possibilidades de realização no pensado, no entanto, são circunstanciadas e submetidas a mediações.


    A consideração desse problema já encheu páginas incontáveis de livros, consumiu o tempo de muitos homens e produziu momentos luminosos na arte em geral, e na literatura e na música popular.


    Em seguida, a letra de uma canção de Chico Buarque de Hollanda e de Edu Lobo. Analise nesse poema o paradoxo entre a liberdade e a necessidade, entre infinitude do desejo e a finitude da ação. Veja como autores fazem uma queixa ao Criador, justamente pela desproporção entre o que se quer e o que se pode. Em outros termos, entre liberdade e necessidade, entre contingente e necessário.




Sobre todas as coisas


Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus




Lobo, Edu e Buarque, Chico. Paratodos, 1983

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Postado por Marcella às 22:29 0 comentários


toda palavra tem um som

que não é a sua voz quando lê

que não é a sua fala

cochichada dentro do seu

próprio silêncio







toda palavra tem um som

que você tenta repetir

que é muito diferente

daquele que faz

quando tentamos

falá-las




toda palavra tem um som

mas a gente apenas diz

sem saber o que ela fala

segunda-feira, 24 de junho de 2013

É.

Postado por Marcella às 13:43 0 comentários
Por você, tratei de ajeitar as coisas no meu peito como alguém que limpa a casa para receber visitas.

domingo, 23 de junho de 2013

Só isso

Postado por Marcella às 13:21 0 comentários
Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço. ''Qualquer coisa'' é admitida, menos que não ame com coragem. Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como “estou confuso”. Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar.
Amar com coragem, só isso.

terça-feira, 4 de junho de 2013

-

Postado por Marcella às 16:33 0 comentários
bebia da água, engolindo o próprio reflexo
tinha apenas sede,
não enxergava a própria face
ainda que enxergasse, veria nada.

como se reconhecer quando não se conhece?

engolia sem questionamento
mal sabia o que passava por dentro
nem interessava
da onde vinha tanto medo

apenas engolia, maquinal
tudo que havia, abismal
na tentativa de se compor
e se tornar maior.

e ao engolir o próprio ser
se nutria de si,
na tentativa de pausa de si,
ainda mais infeliz.

meu amor, não há água no mundo
que reflita o que tu não refletes,
nem pausa que me regue.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

É longo e vale a pena ler

Postado por Marcella às 12:01 0 comentários
'' Seja você mesmo'' é história pra criança


Imagine que você sofre de uma doença grave que lhe impede de lembrar como foi o dia anterior sem, no entanto, desfigurar radicalmente os seus sentimentos, desejos e vontades. Você vai para o trabalho e sabe o que tem que fazer, mas, se tentar lembrar o que fez ontem, não consegue.

Todo dia você acorda, abre os olhos e se depara com uma linda mulher do seu lado, estranha, não sabe como a encontrou e nem de onde veio. Toma um susto e acha que estava bêbado no dia anterior. Se a doença continuar, você segue de estranhamento em estranhamento suavemente estressado, pois nunca lembra com precisão o nome das pessoas, nem bem como as conheceu. Vive um dia após o outro meio deslocado, intrigado, tentando se recordar qual era a conexão de uma coisa com a outra.

Essa seria a vida de alguém que não tem as funções do córtex frontal bem ajustadas (ela é uma das primeiras afetadas sob ingestão alcoólica) e, portanto, não tem um sentimento de continuidade.

A capacidade de juntar lé com cré e pôr o tico e teco para funcionar é uma capacidade evolutiva que permitiu que o homo sapiens não tivesse que reinventar a roda ou descobrir o fogo todo dia. Toda a nossa cultura antes da escrita era passada verbalmente de geração em geração para que nada se perdesse de um determinado povo. Os mitos nasceram daí para termos uma narrativa com começo, meio e fim.

O sentimento de finititude e da morte se tornou uma ferramenta evolutiva importantíssima para que a civilização fosse construída com muita velocidade para que as relíquias psicossociais de uma cultura não se perdessem à cada funeral.

No entanto, a realidade é muito mais parecida com o sujeito esquecido que narrei no princípio do texto. Somos muito diferentes, dia após dia, mesmo que nossa mente crie uma sensação de identidade única que corre como se fosse a mesma no tempo. Chamo isso de efeito “crescimento capilar”.

Na medida que seu cabelo cresce, você não percebe que ele se alonga ou modifica, só o cabeleireiro quando vai cortar. O mesmo acontece quando você encontra uma tia velha que há muito tempo não vista, ela nota as nítidas diferenças do seu corpo e personalidade, menos você que acha que continua sendo o mesmo de sempre.

Somos mais parecidos com um picote de rolo cinematográfico, sem antes e nem depois. Cada quadro exposto sucessivamente nos dá o efeito de continuidade e movimento, quando na realidade o que existe é a sobreposição de um quadro único em sequência de outro quadro único.

Essa sensação de que somos os mesmos é benéfica historicamente, mas na vida pessoal é uma confusão, pois queremos que as pessoas sejam as mesmas que conhecemos ontem sem nenhuma alteração radical. Quando ela se comporta de um jeito não habitual nós brigamos e dizemos: “não estou reconhecendo você” e exigimos que ela volte a ser como nós a vimos pela primeira vez.

Na realidade, esse desejo por continuidade atravanca nossas relações e não nos permite avançar pra valer. Inibimos ações arriscadas das pessoas que amamos porque não queremos nenhuma quebra de enquadramento. Fazemos o mesmo conosco quando percebemos um impulso, sentimento ou pensamento estranho, então nos culpamos e punimos como se fôssemos seres repugnantes e incoerentes.

Sim, somos contraditórios e não-lineares.

A ideia muito pregada do “seja você mesmo” é bem presunçosa, além de ignorante ao afirmar que há um “si mesmo” sempre estável e inalterável. Até as células de nosso corpo se modificam e reajustas funcionalidades numa fração de segundos. A prova disso é nosso sistema ósseo se regenera de ano a ano com a ajuda dos osteoclastos e osteoblastos, que respectivamente são responsáveis por “comer” o tecido ósseo e outro “defecar” a massa que compõe o seu braço querido. Essa dança permite que você tenha lindos novos ossos todos os anos. A osteosporose é o descompasso dessa dupla dinâmica.

Assim é a nossa identidade, ali em essência, nada é linear, previsível, encadeado e causal como gostaríamos. O tempo todo inventamos teorias para explicar o porquê somos do jeito que somos e a psicologia é especialista em criar conexões aparentemente causais entre infância, adolescência e vida adulta, mas isso nem sempre é válido e plausível. Acho que é só mais um jeito de acalmar a nossa mente para a sensação de descontinuidade que nos atormentaria caso fosse vivenciada de fato.

Nos primórdios da NASA, os cientistas fizeram um experimento interessante com os candidatos à viajantes do espaço. Com receio que os astronautas tivessem vertigens e enjôos terríveis na ausência de gravidade, eles colocaram um óculos que projetava uma imagem invertida horizontamente, portanto, se seu amigo viesse dar um abraço de aniversário você, o veria caminhando no teto e com a cabeça para baixo.

O aparente desconforto inicial desaparecia completamente no prazo de 21 dias, pois o cérebro, inteligente que é, invertia a imagem do óculos para que você voltasse a ter a sensação de similaridade com as imagens que sempre viu. Eles tiraram uma valiosa lição disso que se repetia com todos os estudados. O cérebro demora 21 dias para se readaptar a qualquer estímulo, por mais estranho e maluco que seja. Por esse motivo, intuitivamente, muitos mestres criam retiros em que passam de 20 a 30 dias meditando ou tratando de um assunto exaustivamente para que você obtenha um aprendizado mais efetivo. Infelizmente as seitas malucas, governos totalitários e empresas abusivas fazem essa mesma lavagem cerebral com êxito.

Lutar contra isso seria como se acordássemos num país diferente, com uma língua distinta a cada dia. Isso poderia excitar muitas pessoas que olhariam tudo como um turista interessado, como se a pessoa amada fosse olhada como a primeira vez. Mas nosso senso de sobrevivência psíquica e manutenção do status quo ficaria lançando sinais de alarme o tempo todo pelo pânico geral que causaria não se reconhecer como é.

Quando percebo que minha mente quer me engolir – no hábito de me negar a pensar – eu faço uma coisa tola, mas que funciona: planto bananeira (sozinho para não parecer estranho). Naquela fração de segundos que todo o sangue do corpo desce para a cabeça e eu vejo o mundo ao contrário, me recordo que a sensação de continuidade enfadonha que chamamos de rotina é só uma ilusão da minha mente. Cada minuto que passa é desconhecidamente novo para os seus sentidos, então lembre disso para sair do amortecimento mental.

Se você sente que sua vida está parada ou que é infeliz (anestesia da descontinuidade), tente não deixar que suas papilas olfativas existenciais se acostumem com o perfume que você usou pela manhã.

Tocar a mulher que você ama nunca é o mesmo de sempre, é diferente em cada toque, suspiro, seja lá o que for.Conversar com um amigo também não. Cada encontro com uma pessoa é um chamado para a empatia que é o exercício constante de um momento único tentando se comunicar com o momento único do outro sem esteriótipos, preconceitos e condicionamentos.

Acho curioso que muitas pessoas encaram trâmites burocráticos para alçar vôo até um país diferente e raramente tiram um visto para viajar em suas vidas singulares.

Na real, somos estranhos constantes uns para os outros e se suportarmos a angústia do desconhecido contínuo seremos sempre turistas encantados e curiosos por nós mesmos.

(Frederico Mattos)

domingo, 26 de maio de 2013

Tudo o que escrevo é amor

Postado por Marcella às 17:35 0 comentários
A gente se conhece tão bem. Convive junto. Faz tudo - das coisas mais ordinárias até as coisas mais inocentes - em comum acordo. Nunca escondemos nada um do outro - seria impossível, afinal.Escrevo esta carta apenas para dizer o quanto fico contente, mesmo eu estando triste, de vê-lo feliz. Quer dizer, eu espero que você esteja feliz. Daqui de onde estou, posso vê-lo muito bem. Mas o que vejo ainda não é você: vejo a mim, nesta forma tristonha, melancólica e pensativa. Te escrevo para dizer que estou triste.Só quero conversar com alguém que me entenda e não possa fugir de mim. Alguém que esteja sempre por aqui. Que escute. Que cale. Que abrace e chore minhas lágrimas. E esta pessoa sou eu, e esta pessoa é você.Eu fiz tudo. Sei que nunca fui bom com escombros, mas, desta vez, eu tentei. Catei cada caco, fui atrás de cada pedra quebrada, juntei todas as pontas soltas.No fundo, bem lá no fundo, minha esperança é de que você tenha conseguido. Não gosto da palavra superado.Conseguir é mais inocente, mais cheio de vida, mais repleto de vestígios desta coisa que é amar.Por isso, espero que você tenha conseguido: voltar a sorrir, a buscar, a acreditar que há alguma razão nestas coisas todas que bradam emoção, emoção, emoção...

Será que você já sabe o que é o amor? Será que há algo novo pra descobrir sobre ele?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Não se precipite,

Postado por Marcella às 21:33 0 comentários
Não suponha(o) o que não foi anunciado
Gestos e olhares são quase suficientemente claros
No escuro, o muro se arma
Quanto mais alto,
mais silêncio,
Então me conta o que incomoda
que eu te conto o que incomoda
e assim, desse jeito, vamos acertar
a rima, a métrica, a lógica, a tônica
o alvo, o compasso, a cadência harmônica
entre nós, entre eu e tu, entre nós
entre eu e tu e nós
Recolhe o dedo em riste,
e vamos junto desviar do que estorva
Pode ser desconfortável,
mas só com sinceridade se contorna
o muro que, no escuro, se arma
quanto mais alto,
mais silêncio...

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Lista dos desejos

Postado por Marcella às 17:19 0 comentários
Eu queria ser uma bomba de nêutrons,
E por uma vez, eu poderia explodir
Eu queria ser um sacrifício
Mas que, de alguma maneira, ainda vivesse

Eu queria ser um enfeite sentimental que você pendurou na árvore de Natal,
Eu queria ser a estrela que fica lá em cima

Eu queria ser a evidência
Eu queria ser os motivos
Para 50 milhões de mãos erguidas
E abertas em direção ao céu

Eu queria ser um marinheiro com
Alguém que esperou por mim
Eu queria ser tão feliz
Tão feliz quanto eu mesmo

Eu queria ser um mensageiro
E que todas as notícias fossem boas
Eu queria ser a lua cheia brilhando
Na janela de qualquer casa

Eu queria ser um alienígena
Numa casa atrás do sol
Eu queria ser a lembracinha
Na qual você mantém nas chaves de casa

Eu queria ser o pedal do freio
Do qual você dependeu
Eu queria ser o verbo "confiar"
E nunca te decepcionar

Eu queria ser a música no rádio
Aquela que você sintonizou
Eu queria, eu queria, eu queria, eu queria...
Eu espero que isso nunca termine

terça-feira, 14 de maio de 2013

Goethe

Postado por Marcella às 22:33 0 comentários
Johann Wolfgang von Goethe além de ser considerado o mais importante escritor alemão, cuja obra influenciou a literatura de todo mundo, é também um dos meus escritores preferidos. E como de costume, é um hábito meu ler antes de dormir, ainda mais que venho tendo problemas com o sono e isto se encaixa totalmente com o que vou levar para pensar junto com o travesseiro, ideal é deixar um trecho interpretado que está contido na tragédia intitulada de Fausto -segundo Goethe, essa obra representa o ''suma sumaruim'' de sua vida-.


Antes do compromisso há hesitação,a oportunidade de recuar,a ineficácia permanente.Em todo ato de iniciativa (e de criação), há uma verdade elementar cujo desconhecimento destrói inúmeras idéias e planos esplêndidos:no momento em que nos comprometemos de fato, a providência age também.Ocorre toda espécie de coisas para nos ajudar,coisas que de outro modo nunca ocorreriam. Toda uma cadeia de eventos surge da decisão, fazendo vir em nosso favor todo tipo de encontros,de incidentes e de apoio material imprevistos que ninguém poderia sonhar que viria em seu caminho.Comece tudo o que pode fazer,ou que sonha que pode fazer.A coragem contém em si mesma, o poder, o gênio e a magia.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Postado por Marcella às 15:03 0 comentários
It's been hard days for mamma
and hard days for me too
keep fighting for my love as a woman
and mamma cries as I knew she would do

It shouldn't be that hard
no, mamma
we accept each other
to make it easy

Life is good
life is so fine
dear, mamma
let's smile to life
and make it easy...

zero/inteira expectativa

Postado por Marcella às 07:52 0 comentários
23:06
Que confusão.
Certos pontos da vida são tão dualistas. Expectativas, por exemplo. Elas conseguem ser necessárias e cruéis ao mesmo tempo. São necessárias ao ponto de te estimular, de te fazer sentir curiosidade, encorajar, até tem o poder de fazer a gente pensar que as coisas vão dar certo (o princípio do pensar positivo). Eis que em contrapartida, mesmo que te levantem, elas te derrubam. Como se toda a base sólida da raiz forte tendesse a desparecer e todos os planos se vão junto com elas. Como é tênue a linha das expectativas. Embora sempre presente na vida de qualquer ser humano, que elas consigam deixar amor para quem as carrega; no meu caso, quero apenas ser feliz, ter um braço que me envolva pela cintura e alguém para dizer que eu não devo me preocupar com as expectativas.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Então fique

Postado por Marcella às 22:41 0 comentários
Fique mais depois do café, do almoço, jantar, do filme, da festa, do banho gelado. Fique a vida toda que eu ainda vou achar que é pouco, então fique, até… a vida que vem. Fique mais pra gente conversar sobre nada e fazer tudo que quiser, qualquer coisa é melhor quando tem você.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

La complicidad

Postado por Marcella às 13:22 0 comentários
Soy el verbo que da acción a una buena conversación
y cuando tu me nombras siente ganas
Soy la nueva alternativa contra contaminación
y tu eres la energía que me carga
Soy una arboleda que da sombra a tu casa
un viento suave que te soba la cara
de too's tus sueños soy la manifestación
tu eres esa libertad soñada...

Soy la serenidad que lleva a la meditación
y tu eres ese tan sagrado mantra
Soy ese juguito e' parcha que te baja la presión
y siempre que te sube tu me llamas ya
tira la sábana sal de la cama
vamos a conquistar toda la casa
de todo lo que tu acostumbras soy contradicción
creo que eso es lo que a ti te llama

La complicidad es tanta
que nuestras vibraciones se complementan
lo que tienes me hace falta
y lo que tengo te hace ser más completo
La afinidad es tanta
miro a tus ojos y ya se lo que piensas
te quiero por que eres tantas cositas bellas que me hacen creer quién soy

 Soy la levadura que te hace crecer el corazón
y tu la vitamina que me hace falta
Soy ese rocío que se posa en tu vegetación
y tu esa tierra fértil que esta escasa
Soy la blanca arena que alfombra tu playa
todo el follaje que da vida a tu mapa
de toda idea creativa soy la gestación
tu eres la utopía tan soñada

La complicidad es tanta
que nuestras vibraciones se complementan
lo que tienes me hace falta
y lo que tengo te hace ser más completo...
La afinidad es tanta miro a tus ojos
y ya se lo que piensas
te quiero por que eres tantas cositas bellas que me hacen sentir muy bien...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Escute:

Postado por Marcella às 15:45 0 comentários
Não tire os ventos da sua vela.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Lonely

Postado por Marcella às 17:02 0 comentários
Lonely, no you'll never be lonely again
Cause you have me now
I'm messy but I'm totally yours
My clumsy hands will hold you
So, you'll never be lonely again
Cause you have me.

Teardrops and ink drops
Fall on the neat floor
Forget all this, let's paint our feet.

Dream drops and fear drops
Raining at our door, let's lock it up, and let it go...

Lonely, no you'll never be lonely again
Cause you have me now
I'm crazy but I'm totally yours
My clumsy hands will hold you
So, you'll never be lonely again
Cause you have me.

And I,
I'll give my best to you
You cry, I dry your pain
You smile, I smile também!

sábado, 30 de março de 2013

Já dizia...

Postado por Marcella às 16:32 0 comentários
Um dos meus poetas preferidos: "O abandono me protege!"

terça-feira, 19 de março de 2013

Postado por Marcella às 16:28 0 comentários
A gente escreve junto o que quiser.

em certos momentos, eu só deveria dizer que...

Postado por Marcella às 15:15 0 comentários
"Eu não tenho nada para oferecer a ninguém, exceto minha própria confusão"
(Jack Kerouac)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Tinha de ser

Postado por Marcella às 21:24 0 comentários
Sabe, ele me lembra um caso antigo que eu nunca tive. Um sapato velho que eu jamais calcei, mas que me serve bem. Um jeans 38 que fica ótimo quando visto. Um sorriso que cabe magicamente no meu rosto. Um abraço de encaixe perfeito… Quem era ele antes d’eu conhecer? (apesar de parecer que eu sempre o conheci, só precisava achar). Não importa. As outras tantas que passaram por ele também não importam. O que realmente me convém e, de fato, é agradável, é essa coisa de encontrar nele uma novidade a cada novo dia – isso faz com que eu descarte minha mania de abusar rápido das pessoas. Ele veio, foi ficando, querendo ficar… Pronto. Agora sou eu que não o deixo mais ir embora.

brilho eterno de um mente sem lembranças

Postado por Marcella às 21:15 0 comentários

quinta-feira, 14 de março de 2013

Partida narrada por ele

Postado por Marcella às 19:56 0 comentários
Minha princesa embarcou.

Olho para o ônibus - bruto, máquina, inanimado – e, num gesto desesperado e inútil, espero que ele me olhe também: quero um pouco de compaixão: espero um pouco de pena: peço, em dor, que ele quebre: e ela desça: e ela venha: e ela fique: e ela eu.

Nada acontece. O motor do ônibus continua sadio e sei, ali, preso na liberdade de poder ir, que, a qualquer momento, ele vai partir: e ela, inerciana, livre na prisão de poder ir, vai também: ela vai, eu vou: mas nós não vamos: nós nos vamos. E choro.

Não a vejo mais, eu sei. Seus olhos de rio já não estão por mim. Seu riso, se muito, só pode ser escutado por qualquer desespero auditivo que eu tenha. Sua voz se perdeu no murmúrio do mundo. Seu beijo - preso em sua boca, refém de seus lábios, morador da sua face - é uma lembrança viva (só os vivos podem matar, meu avô dizia e agora entendo). Sua presença no mundo está abafada por um choro de criança: menina, negra: que segura, com força e doçura, na mão do pai; olho pra esta menina e vejo, em seu choro, o meu choro: somos, neste espelho de lágrimas, dois esperançosos, dois desesperados, dois sós: ela , criança, sozinha com ele aqui; eu, adulto, sozinho com ela lá.

Ela embarcou.

Cadeira 25.

Janela.

Bomfim.

Não a vejo mais, mas vejo o ônibus onde ela entrou: sei sua estrutura física, sei seu número de poltronas, conheço seu interior: estou próximo dela pela consciência de saber como um ônibus é: meus olhos repousam no mesmo lugar que os dela: posso, em mente, ir até onde ela está sentada: escutamos o mesmo motor: olhamos através da mesma janela: estamos próximos demais para estarmos distantes e distantes demais para estarmos próximo.

Ela não está ali.

Mas ela está lá.

E lá está ali.

Ao meu lado, um rapaz tenta passar a catraca. Ele não tem taxa de embarque. O ônibus está prestes a sair. O segurança diz que não pode fazer nada. O cobrador diz que não pode fazer nada. O ônibus está prestes a sair. O rapaz, desesperado, mostra a passagem, precisa viajar. O segurança não pode fazer nada. O cobrador não pode fazer nada. O rapaz, desesperado, oferece a taxa de embarque em forma de dinheiro. O cobrador aceita, mas só se o dinheiro estiver trocado: e não está. Puxo da minha carteira 4 reais e dou para o cobrador. O rapaz me olha: ele não me conhece, não sabe quem eu sou e sequer imagina por que estou chorando, mas me agradece e vejo, em seus olhos, um brilho: talvez felicidade, talvez alívio, talvez esperança. O rapaz sobe no ônibus. Sorridente, vai viajar, vai reencontrar a namorada, a mãe, qualquer coisa assim, e acena, mais uma vez, pra mim.

Tornar o mundo um pouco melhor para ela.
O ônibus começa a andar, entra no ponto cego da minha vida e some no meu campo de coração.

Caminho para casa e encontro um homem que me pede água. Está com sede. Não tem dinheiro. Pego a garrafa de água mineral que acabei de comprar e dou para ele beber. Vejo, em seu rosto, um vestígio de sanidade, de amor, de família. Parece querer sorrir para mim. Tenho vontade de abraçá-lo, mas, por um vestígio de sanidade, não o faço. Ele se vai. Ele tem água. Ele não tem mais sede. Ele sorriu.

Tornar o mundo um pouco melhor para ela.

Antes de entrar no táxi, vejo um flanelinha tomando chuva. Pergunto onde ele mora e como vai embora. Peço para ele entrar no táxi e vou deixá-lo em casa. Ele desce do carro, toca em minha mão e me diz que é a primeira vez que alguém faz isto com ele. Sorrio ao que ele completa: faz tempo que não me sinto gente.

Tornar o mundo um pouco melhor para ela.

Chego em casa. Entro no quarto. Olho pra cama. Estou triste: posso ver, refletido em minhas cobertas e travesseiros, meus olhos tristes: sinto falta da presença, do sentar, do caminhar, do respirar, do brincar: sinto falta do modo como ela me olha, como ela me toca, como ela me ri.

Ela é uma menina: seus olhos me enobrecem: é como se eu me tornasse mais importante a cada olhar dela que repousa em mim.

Sua inocência, travestida de medo, me sugere doçura, me busca carinho, me adivinha verdade: estou acalentado por poder ser eu mesmo ao lado dela: menino, choro, bobagem.

Seu jeito de se esconder em si precipita abismos em mim: encosto a cabeça na vida, conto até cem e vou encontrá-la mais uma vez: seja lá onde estiver.

Seu carinho, tão doce e calmo, me brisa: viro uma pequena folha a se despreender da árvore: plano em seu toque, em suas mãos, em suas unhas: repouso na cadência da sua respiração: acabo outonando uma primavera.

Volto, então, ao rapaz sem taxa de embarque, ao homem com sede, ao flanelinha e ao poema de Álvaro de Campos que me diz: “todas as cartas de amor são ridículas.”

Releio o que escrevi. Ridículo.

Releio o que escrevi. Amor.

Te coloco em minha cacunda, desço as escadas, sorrimos. Atravessamos o trânsito correndo, pois só tem graça correndo. Brincamos, feito duas crianças, de morder um ao outro. Saímos para almoçar pizza como se fosse a coisa mais normal. Tomamos cada colher de açaí com uma lata de leite condensado. Brincamos e, vez em quando, brigamos de ciúmes. Cuidamos um do outro com calma, carinho e dengo. Rimos de qualquer bobagem sem receio do olhar cético das pessoas. Aprontamos as nossas com medo, sem medo, de sermos escutados. Coloco você em meus braços: minha menina, minha pequena, minha princesa.

Eu quero ser ridículo para sempre ao seu lado.

quarta-feira, 13 de março de 2013

um sambinha

Postado por Marcella às 22:55 0 comentários



Se você for, por favor, me leva,
e se eu não for, me carrega...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Sem qualquer semelhança

Postado por Marcella às 21:18 0 comentários

Está comprovado na minha percepção que não há só uma forma, uma ordem exata de se construir um viver, uma vida; pelo contrário, existem várias. Digo que não são todas as pessoas que vão entender/concordar com o que penso e ainda mais eu, que sou uma garota que nem chegou na casa dos vinte, mas em minhas ideias isso me parece uma via diferente de enxergar a vida.
A gente passa mais de anos na escola, passando pelo ensino infantil, fundamental e o médio. Em seguida, vem o ''pesadelo'' do vestibular. Nele depositamos futuras esperanças do que seremos e do que faremos na vida. Escolheremos uma carreira por afinidade, paixão e esperaremos ganhar um bom salário e que realize os nossos sonhos: de viajar, conhecer lugares, comer bem, comprar uma casa, carro, roupas, celulares, computadores, seja lá o que for confortável para cada qual.
Por que é assim?
Sou apaixonada por tantas coisas da vida que ainda não sei, ainda não decidi o que quero fazer com um afinco de verdade. E daí, se o que eu quero não me traz mares de dinheiro? E daí, se eu não quiser ser engenheira? E daí, se eu quiser filosofar, falar de literatura ou história ? E daí, se eu não quiser obter títulos de graduação, mestrado, doutorado ou qualquer coisa do tipo? Isso me faz uma pessoa melhor? Não.  Mais interessante? Sim, para o mercado de trabalho e para a sociedade ou se te fizer feliz, mesmo. E daí, se eu não quiser ocupar um cargo máximo de uma empresa conceituada? E daí?
Penso que a vida não precisa seguir à risca essa ordem de realizações. Quero ser várias coisas, e dentro dessa variedade, é mais do que uma faculdade, mais do que um emprego, mais do que uma vida de assalariado, mais do que níveis de inteligência (mania ridícula da sociedade de valorizar o ser humano pelo nível acadêmico, tem tanto trabalhador de rua com uma concepção melhor do que a de um deputado federal...). Falo do real significado da inteligência, o conhecer, o compreender. O conhecimento da natureza, do espírito, do amor, da nossa própria vida.
Tenho plena certeza de que serei realizada e que minha vida no futuro vai ser muito feliz e que saberei discernir minhas escolhas. Minha essência será um das direções para dizer o que é melhor para mim e as pessoas que me respeitam, me amam entenderão se não for aquilo que elas esperavam. Parafraseando um dos meus filósofos favoritos, o verdadeiro conhecimento vem de dentro, e deste -conhecimento-, sei que aos poucos e muitos, em cada momento, vou buscando e ele vai se mostrando para mim como um caminho. E por favor, tenha a mínima consciência que não se trata de utopia.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Carta

Postado por Marcella às 20:39 0 comentários
E assim você veio. Trazendo aquele pedaço que me faltava e, dessa vez, me deixando com um pedaço teu. A partir de agora terás que entender que essa carta é só pra você. Pouco importa quantas pessoas irão ler, se alguém irá comentar. Ela é só sua, até porque só você terá a capacidade de se colocar no lugar e de sentir a verdade dos fatos.Você me marcou, e hoje eu transbordo você. Obrigada por fazer o meu coração sorrir, acho que foi a coisa mais feliz que já me aconteceu. Agradeço também por me deixar abrir a cortina da tua alma e te olhar por dentro. Teus olhos ternos junto ao teu toque me trazem uma esperança,lê-se também certeza, de uma vida azul e de felicidade plena. Enfim encontrei o significado de paz. Peço desculpas antecipadas se um dia eu extrapolar na escrita, mas você bem sabe que sou pingos de versos que chovem poesia e molham o ''te amo''.

Caminho da vida

Postado por Marcella às 20:25 0 comentários
Todos nascemos como uma página em branco, durante a vida temos de ter bonança para adquirir conhecimento, temos de ter perseverança para tentarmos que a página da nossa existência englobe mudanças positivas noutras soltas que voam por ai.

Isto é o que eu sou. Tu podes ser o que quiseres, mas tens de querer o que fores (tal como diria Fernando Pessoa.)

Todo o tempo é tempo de formarmos realidades.A verdade, queiram aceitar ou não, queiram desmoralizar-nos ou não, é que o futuro somos nós (todos nós), o futuro é de quem está cá hoje, de quem lê estas letras, de quem não lê estas letras, do rico de hoje, do deitado nas ruas, o futuro é teu.

Por isso é que ninguém pode ser abandonado, todos são essenciais.

Por isso é que não há nada que nos possam impingir que será assim, tudo será o que nós quisermos se o formos.

Por isso é que temos o compromisso de agir.

A verdadeira inteligência está no fazer e no ser, nunca no ter.

Ninguém me diga que não sou capaz de fazer alguma coisa, que ninguém me diga que nunca chegarei a algum lado, nem que algo é impossível.

Não há que parecer, há que ser.

Terás de vir, ficar, e entender.

A frigidez da calma, que é tão precisa na tua evolução como ser humano.

A saborosa e paciente hospitalidade, que tanto irás querer dos outros em qualquer situação da tua vida.

A sensata inocência em se manter meramente igual a si, que não é um azar, é um mérito.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

procure-se dividir em alguém

Postado por Marcella às 20:56 0 comentários
Sou uma garota matuta de uma ilha construída pelo homem, talvez você não se lembre, por isso re-digo. E, por ter a alma interiorana, me tornei uma deslumbrada vocacional: a folha que cai me deslumbra, o mar e seu poente me deslumbram, a mulher adormecida no coletivo me deslumbra, a comida japonesa e seus hachis me deslumbram, o shopping e sua manada de adolescentes me deslumbram. Meu deslumbramento é tanto, e vai tão longe, que aprendi, copiosamente, a olhar tudo com a doçura de um último olhar: vejo, fotografo, eternizo. Tenho imenso medo das coisas não se repetirem na paisagem das minhas vistas.

Assim, sonhadora, esperançosa e boba, sempre achei que ele viria embalado numa rede - e não num cavalo, e não numa nave, e não envolto em qualquer aura mística cheia de neblina. Embora tenha sido desde menina uma imaginativa obrigatória, daquelas que viajam e pensam coisas exageradas, agora, ainda acometida por nosso encontro, percebo que estava errada: a vida, a felicidade e o amor não passam de uma rede a balançar você. Mais do que cenário e provas e firulas poéticas, cabe na paixão a simplicidade das mãos trêmulas, do coração a dar cambalhotas, do chão de azulejos frios - sem que seja sequer necessária a beleza plástica dos grandes castelos: o amor é simples quando é simplesmente amor.

Aprendi isto na sexta-feira-você. Vi, como se seu rosto fosse uma lousa, seus olhos a me ensinarem coisas do coração. Sua boca, refletida em beijos, me ensinou que a felicidade tem gosto. E seu cheiro, que ela tem cheiro. E sua temperatura, que ela é quente. E seu gemido, que a felicidade geme.

(Isto é o que eu chamo, num daqueles gestos que denunciam o quão ridículo é o apaixonado, de “Vocêlicidade”.)

Naquele dia, que é uma sexta-feira como qualquer outra, ficou tudo claro pra mim: você não é, nem nunca foi nem nunca será, uma pessoa. Vejo-te uma sensação, um suspiro, um poema em que cada parte do seu corpo é um verso a rimar com o meu.

Foi assim que numa destas epifanias sentimentais a quem sujeitos como eu são convidadas, que descortinei você. Tenho plena certeza que falarei, com carinho e saudade, de você aos meus amigos(as). Bêbada me desesperarei infantilmente a enviar mensagens que talvez ou nunca serão respondidas. Na crônica, na redação e na poesia você será sempre uma lembrança a me visitar: incrustada, escrita e até chorada.

Haverá, a partir de agora, em cada linha por mim traçada, alguma palavra a você destinada: e isto será meu segredo, meu riso cúmplice, meu detalhe ímpar. Sempre que alguém ler qualquer coisa minha, estará, numa destas inconsciências da vida, presenciando, sem que saiba, você. Haverá você numa vírgula, num ponto, numa tese, num artigo. Haverá você numa exclamação, num parágrafo, num título. E para que cada palavra possa te cuidar e mimar, elas terão sombra, perfume e calor. Serão palavras confortáveis, quando você precisar de conforto. Serão palavras doces, quando sua tarde pedir um pouco de açúcar. Serão palavras de mar, quando você precisar de ondas. Serão palavras fortes, quando você precisar se reerguer para a vida. Serão palavras, quando você precisar de.

Estaremos juntos, mesmo que você nunca saiba, enlaçados por qualquer esperança minha, por qualquer sonho, por qualquer desejo. Esta será minha peraltice com o mundo: deixarei você visivelmente invisível aos olhos daqueles que arriscarem ler o que escrevo.

Talvez seja eu muito egoísta, ciumenta ou boba. Talvez seja eu pouco mulher, destemida ou corajosa. Talvez seja eu pouco mulher.

Pouco mulher para querer você na completude da minha vida.



                               

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O caminho da beleza pura

Postado por Marcella às 20:47 0 comentários
Para Platão, a felicidade e a virtude consistem na contemplação da beleza pura.

Todo aquele que deseja atingir essa meta ideal, praticando acertadamente o amor, deve começar em sua mocidade por dirigir a atenção para os belos corpos, e antes de tudo, bem conduzido por seu perceptor, deve amar um só corpo belo e, inspirado por ele, dar origem a belas palavras. Mas, a seguir, deve observar que a beleza existente num determinado corpo é imã da beleza pura que existe em outro - e que, desde que se deve procurar a beleza da forma, seria grande mostra de insensatez não considerar como sendo uma única e mesma coisa a beleza que se encontra em todos os corpos. Quando estiver convencido dessa verdade, amará todos os belos corpos, passando a desprezar e ter como coisa sem importância o violento amor que se encaminha unicamente para um só corpo. Em seguida, considerará a beleza das almas como muito mais amável do que a dos corpos, e destarte será conduzido por alguém que possua uma bela alma, embora localizada num corpo despido de encantos, e a amará, zelando por sua felicidade e inspirando-lhe belos pensamentos, capazes de tornar os jovens melhores. O amante contemplará desse modo a beleza que há nos costumes e nas leis morais, notando que a beleza está relacionada com todas as coisas e considerará a beleza corpórea como pouco estimável.


Em seguida, vai um excerto de um diálogo platônico

Quando um homem foi assim conduzido até esta altura da arte amorosa, e viu as coisas belas em graduação regular; quando atingiu corretamente a instituição amorosa, esse homem, caro Sócrates, verá bruscamente certeza beleza, de uma natureza maravilhosa,aquela que era justamente a razão de ser todos os seus trabalhos anteriores. Verá um que, em primeiro lugar é eterno, que não nasce nem morre, que não aumenta nem diminui, que além disso não é em parte belo e em parte feio, agora belo e depois feio, belo em comparação com isto e feio em comparação com aquilo, belo aqui e feio acolá, belo para alguns e feio para outros. Conhecerá a beleza que não se apresenta como rosto ou como mãos ou qualquer outra coisa corporal, nem como palavra, nem como ciência, nem como coisa alguma que existe em outra, como por exemplo num ser vivo ou na terra ou no céu.

(...)

Pois na estrada reta do amor, quer a sigamos sozinhos quer nela sejamos guiados por outrem, cumpre sembre subir usando desse belos objetos visíveis como degraus de uma escada: de um para dois, de dois para todos os belos corpos, os belos corpos para as belas ocupações, destas aos belos conhecimentos.

(...)Se alguma coisa dá valor à vida, caro Sócrates - prosseguiu a estrangeira vinda de Mantinéia -, essa é a contemplação da Beleza Absoluta. Se aí chegares um dia, uma vez que seja, nunca mais considerarás belos o outro, as vestimentas magníficas e mesmo as belas jovens, a quem tanto admirais agora, tu e muitos outros, a ponto de estardes dispostos, para ver vossos amados e viver sempre juntos deles, se possível fosse, a deixar de beber e comer, animados unicamente pela paixão da sua contemplação, pelo anseio de estar sempre ao seu lado.
Platão. Banquete.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Isto ou aquilo

Postado por Marcella às 22:41 0 comentários

Entre perguntas,respostas,escolhas,formalidades e futilidades...

Beleza se põe à mesa? Ou melhor, na cama?
Homens carregam os genes do sem vergonhismo ou o papo é fichinha?
Mulher frágil ou revolucionária?
Estar satisfeito ou querer sempre mais?
Sozinho ou acompanhado?
Peito ou bunda?
Grandes ou médios ou pequenos?
Valorizar as curvas do quadril ou do cérebro?
Pornografia ou sex appel?
Verdade ou mentira?
Fidelidade ou traição?
Respeito ou grosseira?
Sinceridade ou cinismo?
Amor ou paixão?
Atração ou amor platônico?
Casar ou não casar?
Para sempre ou eterno enquanto dure?
Declarar-se ou acanhar-se?
Pedir desculpas ou apelar para o orgulho?
Permanecer ou fugir?
Longe ou perto?
Mar ou cachoeira?
Samba ou bossa nova?
Mergulhar raso em pessoas fundas ou mergulhar fundo em pessoas rasas?
Engolir ou desabafar?
Realidade ou fantasia?
Soma ou some?
Entregar-se ou esconder-se?
Pensar ou agir?
Lágrima ou sorriso?
Medo ou coragem?
Inteligência ou ignorância?
Conteúdo ou forma?
Bagagem de vida ou de valores?
Gentileza ou estupidez?
Esquecer ou lembrar?
Querer o bem ou querer o mal?
Tomar a frente ou correr?
Individual ou coletivo?
Sim ou não?


Pergunta, responde, escolhe: O que é útil ou o que é fútil.
A vida te apresenta as situações.





quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

gosto dessa foto

Postado por Marcella às 22:04 0 comentários


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

eu e você, Morfeu e eu

Postado por Marcella às 14:10 0 comentários

Enquanto dormia ao lado dele, fiquei matutando com meus botões...
Quando durmo com ele, meu pensamento voa bem longe.
Quando durmo com ele, a noite parece encurtar, talvez seja porque vamos dormir tarde aproveitando um ao outro e a madrugada vai chegando, logo depois, a manhã.
Quando durmo com ele, o sono é melhor do aquele quando durmo sozinha, na minha cama de solteiro.
Quando durmo com ele nada melhor do que pousar a cabeça em seu peito -respirando paz e segurança- e receber o primeiro beijo do dia.
Quando durmo com ele, a cama faz a morada de um lugar que quero permanecer e jazer de amor.
Quando durmo com ele, o dia já começa com diálogos e gargalhadas que saem por entre os lençóis. 
Quando durmo com ele, derreto-me. -derreto-me ao sentir tua perna se enroscar na minha e saber que tudo vai começar de novo, mais uma vez-.
Quando durmo com ele, sinto-me a pessoa mais feliz do mundo. Recebo os melhores abraços e beijos matinais: - Bom dia, meu amor! Dormiu bem?

Ah, perdoem-me a extravagância misturada com filosofia sensacionalista, mas eu gostaria de ter esta ''rotina'' durante todos os dias da minha vida.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

dúvida e conclusão

Postado por Marcella às 19:06 0 comentários
- Quantas já perambularam no coração dele?
- Não sei, muito embora perceba que são tantas aos pés desse rapaz...

(Ele adoça a boca, dá um gosto diferente daqueles de uma sede insaciável.
Sentimento no toque, na fala e no olhar.)

- Ah! Descobri qual ar que o definia:
  Era o ar de poeta...

Embalada pela bossa

Postado por Marcella às 18:08 0 comentários
O encanto se concretiza quando com olhos inocentes você admira
Tudo o que já fiz.
Fui movida pelo tempo, lançada aos ventos, desprendida a momentos
Buscando uma única diretriz.
Chamou-me atenção pelo olhar
Pousou-me a paz no peito
Encheu-me a cabeça de anseios
Receios.
Encontro-me igualmente embevecida ao lado teu
Quero libertá-lo assim que conquistar a minha liberdade
Quero prender-me assim que me apresentares à prisão
Sei que ela mora no peito, onde a paz pousou primeiro
Com ar de troca, a gente já se enrosca e pede calma a nossa história.

Clarice Lispector

Postado por Marcella às 16:38 0 comentários
O caminho que eu escolhi é o do amor. Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que eu vou ter que encarar. Escolhi ser verdadeira. No meu caminho, o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero, por isso não estranhe a minha maneira de sorrir, de te desejar o bem. É só assim que eu enxergo a vida, e é só assim que eu acredito que valha a pena viver.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

William Shakespeare

Postado por Marcella às 11:46 0 comentários

Eu aprendi que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

espinho e vida

Postado por Marcella às 07:35 0 comentários

Nem sempre é fácil viver.

Há dias amenos, com gosto do mesmo pão com ovo que você janta todos os dias. Há dias que machucam, como espinho escondido na sola da sandália: inerte, o espinho não agride seu pé: é você, com o peso das próprias pegadas, que busca o espinho.

Você anda, fere.

Há um espinho preso na sola da sua sandália, há o movimento dos seus passos, há o peso do seu corpo, há a dor: tudo programado pelo ato de ir e vir: um pequeno déjà vu corporal: mas, me diz, por que você anda?

Por que, então, você anda?

Por que, mesmo sabendo que vai doer, você anda?

A dor é suportável. É preciso mover-se. É só um espinho. Não vai te matar. Você precisa trabalhar. Há contas para pagar. É preciso buscar seu filho na escola. Tem que estudar. Não pode faltar. É aniversário da sua mãe. É dia dos pais. É prova da faculdade. Hoje tem festa. Você acredita no futuro. Você espera que as coisas melhorem. É só uma tempestade, vai passar. Você não tem pra onde ir, então continua indo.

Por que, mesmo sabendo que vai machucar, você anda?

Otimismo? Já viu alguém conseguir? Acredita na felicidade? Deus vai resolver tudo? Alguém depende de você? Você não está sozinho nessa? Você apenas quer? Você acha que consegue? Acha que vale a pena? Não é abismo, é montanha?

Por que, mesmo sabendo que há um espinho, você anda?

Por que há alguém do outro lado. Te esperando.

Alguém que vai andar descalça com você até os dias amenos, com o gosto do mesmo pão com ovo que você janta todos os dias.

Nem sempre é difícil viver.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

um texto para lembar-me de ti

Postado por Marcella às 22:46 0 comentários
Não se pode negar. Não se quer negar. Não se deve negar. O que se pode é fazer. O que se quer é crer. O que se deve é ter. Para que, com que, o que. Não sei, não posso saber, não quero saber, não devo saber. Mesmo assim, nego; mesmo assim, quero; mesmo assim, posso; mesmo assim; devo. É meu direito e meu dever e meu poder e meu querer transformar você, do meu jeito, ao meu modo, com minhas próprias receitas. São com minhas palavras, e não argila e não massa de modelar e não gesso, que consigo te esculpir, te moldar, te tornar palpável. Não se pode pegar um anjo, a não ser que este anjo seja de porcelana. Não se pode prender um sonho, a não ser que este seja de padaria. Não se pode colocar no colo um sentimento, a não ser que este seja de papel. Por isso, para te tornar palpável e humano e massa, te aprisiono neste texto, onde cada frase é uma barra de ferro a tornar a cadeia real, dura, cinza. Aqui, nestas linhas que capengam, te dou vida, te vislumbro, te transformo; você é do meu jeito para mim, mesmo que não seja para você.

Quero te dar um cantinho quente, confortável e cheio de luz para iluminar seus olhos. Quero que você tenha água fresca, fruta suculenta e uma paisagem linda a bailar em tua janela. Este texto, então, deve ser físico, concreto, construído. Veja nele um refúgio, uma paragem, uma praia. Venha até ele sempre que precisar ficar sozinho. Proteja-se do mundo sendo envolto por cada linha que, sem compromisso ou razão ou motivo, te escrevo. Só entre, gire a chave, e permaneça aqui, bem quieto no silêncio do pensamento, na cadência do sonho, na inconfundível leveza da ideia. Cada frase, se você se esforçar um pouco, será o que você quiser. Não veja a junção de palavras ou o trepidar do teclado ou a construção de termos; vá além do texto, vá além do lido, vá além das palavras; esqueça o que te ensinaram na escola: não te escrevo sobriedades, nem ideias, nem letras e mais letras; cada palavra que aqui faço brotar é uma nova cicatriz a saltar em minha pele; toque, sinta a densidade da marca, a profundidade do corte curado, a tatuagem da queda; percorra seus dedos como um cego que todos nós somos e acaricie cada letra, cada pedacinho de mim, ou de você, que aqui disponho desorganizadamente.

Não sinta medo de ir embora. Não sinta vontade de ficar. Fique ou vá, mas fique e vá sabendo-se aqui. De que adianta não ser totalmente para ser apenas um terço do que se é?
Não, não, não. Isto é fodido demais.

Eu te exijo completamente; eu te obrigo a não se parcelar; eu não te quero gomo, te quero laranja. Quero te esmiuçar completamente; quero ser, para ti, aquele brinquedo do parque: trema em mim, grite em mim, chore em mim e no fim, sorria; não aceito a imparcialidade da frieza, não me dou bem. Meu amor, escolhi não ser constante: decidi por ser eu mesma. Você é o único a quem eu permito me ver; você é o único a quem escolhi falar a verdade, sem tropeços, sem anomalias, sem capas.

sendo assim

Postado por Marcella às 22:13 0 comentários


Numerosos são os homens e as mulheres e as crianças da cidade

Eles correm, apressados, loucos varridos e nunca olham pra trás

Ou pra o lado ou pra dentro ou pra o outro;

Apenas seguem em frente, firmes, como carros desgorvernados

Atropelam sonhos, aleijam amores, passam por cima da vida.



O sangue jorra de olhos como os meus

Mera testemunha ocular de um crime que também cometo

Só por ser pessoa como eles.

Somos da mesma raça, seres humanos do mesmo mundo

E carregamos como herança o crime dos nossos irmãos.



Não há salvação pra ninguém

Nossa família está toda corrompida

A janta é solitária, o almoço esfriou e o café da manhã não foi posto.

Estamos sós, cada um, cada todos, cada cada

Lutando pela própria vida

Enfrentando as próprias dores e dificuldades e fomes.



Matamos pra nos mantermos vivos

Somos animais que pensam

Os piores criminosos

Pois nosso crime é consciente

Há razão no nosso disparo

Há vontade na nossa faca

Há planejamento no nosso soco.



Essa é nossa vida

Onde quem não mata, verá morrer

E quem não morre, verá matar.



Não somos melhores por sermos passionais

Não somos dignos por sermos racionais

Somos tão ou mais cruéis que os que cometem

O que não tivemos, por hora, coragem de cometer.



Nós temos dinheiro, carro, roupas de marca

Sexo pago, cigarro, cervejas e uma gorda conta bancária

Temos filmes, pipocas e coca-cola

Propagandas, bonés e tênis bacanas

Temos maquiagem, vestidos caros, jóias precisosas

Motos arrojadas, comidas finas, móveis nobres

Temos relógios de ouro, canetas de diamante, brincos de peróla

Temos tanta coisa pra comprar

Mas do que adianta, afinal?

Nada que custe dinheiro vale a pena ter.

….

Somos pobres banais

Desacreditados

Desvairados

Perdidos

Não nos olhamos mais

Não nos tocamos mais

Não nos sentimos mais



Estamos cada vez mais ricos e o diabo

Comprando carros de luxo

Conquistando mulheres gregas e troianas

Lindas modelos, gostosas e bem torneadas.

Nossa casa é bacana,

Tem quadros raros

Quartos largos

E a maçaneta da porta é de ouro.



Somos pobres banais,

Batalhamos tanto por dinheiro

Lutamos tanto pela riqueza

Trocamos o amor por um cheque

E nos tornamos ganância, luxúria e ambição acima de tudo.



Agora,

Depois de tanto correr atrás de grana

De riqueza e de fortuna e de vinhos caros

Seremos homens e mulheres e crianças

Vivendo os piores dias da vida

Nas poltronas mais confortáveis da loja.



Embaixo de qual cama estão os abraços que a gente deixou de dar?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

um pouco sobre pessoas

Postado por Marcella às 19:40 0 comentários
Nós perdemos, nós ganhamos. Temos aquilo a que chamamos de liberdade.
Somos todos livres, mesmo existindo relações a que damos vulgarmente o nome de ‘amizade’ ou ‘amor’ para nos juntarmos em grupos, para fazermos parte de alguma coisa e sermos, realmente, alguém. Se formos a tentar saber qual é o valor de mil pessoas no Universo, não é praticamente nenhum. Parecemos insignificantes formigas, tontas, no nosso minúsculo Universo, criado à nossa medida. Vivemos, muitas vezes, como se não existisse mais nada para além disso, para além das leis a que estamos sujeitos, nada para além da nossa ‘costa’, nada para além dos afazeres, nada para além do que vemos.Vivemos com o que as outras formigas nos dizem ser certo.
Mas, deu-me para pensar no que efetivamente nos torna diferentes e faz com que a nossa existência seja preciosa. São as ligações, as relações. Essas,são a razão.
Existem, no meio do formigueiro, algumas ou alguma que nos faz pensar que seríamos capazes de abdicar de nós mesmos pela ‘amizade’.
Todos crescemos e somos atropelados uns pelos outros, apesar de irmos todos para o mesmo lugar. Todos envelhecemos, perdemos, mas nem todos esquecemos.
Esquece quem não tem de quem se lembrar. Não sejamos tão impertinentes com a vida. Lembrei-me de quem, daqui a uns anos, poderia nunca mais ver. Lembrei-me de quem, daqui a uns anos, ainda me vou lembrar. Espero, claro, conseguir continuar com esta união. Também vocês esperam continuar com algumas das vossas, mais do que as outras. Espero conseguir ver se teve sorte, se continua a mesma, se está a sair-se bem, se tem quem faça o que faço agora por ela.Vamos refrescando as nossas relações, fazendo ‘upgrades’.Mas existem sentimentos que não mudam.
Existem formigas que valem mais que as mil, por quem subíamos ao monte mais alto e abanava-mos uma bandeira branca com toda a pujança, para tentarmos aumentar o nosso tamanho, por quem parávamos o mundo para as deixar passar, por quem quebramos esta nossa rotina, esta nossa vida egoísta por natureza.
As pessoas, pelo menos como essa de que me lembrei, valem a pena!
Aliás, são o que nos torna imensos, o que nos faz estar, o que nos faz ficar, ir e voltar. Se uma pessoa, por mais minúscula que seja, consegue marcar a vida de outra, pelo menos na medida em que o seu ‘estatuto’ não muda ano após ano, então, não seremos assim tão pequenos, tão fracos, tão insignificantes.Existem pessoas por que faz sentido perder o comboio para apanhar o próximo, por quem vale a pena esperar para podermos ver uma nascente em conjunto, por quem vale a pena correr, acreditar, escutar… ser.

É um ciclo. Todos nos movemos por alguém, ou por alguns ‘alguém’.
E, infelizmente, todos nos esquecemos dia após dia de agradecer a quem devíamos.

Esquecemo-nos de lhes agradecermos por nos chatearem, por nos ‘esmolarem’, por nos cansarem, por nos fazerem sentir pequenos ao lado deles.Se não fosse isso, não faria sentido cá estar.Agradecer por nos gastarem, por fazerem de nós úteis, por fazem de nós alguém no meio da multidão.

domingo, 13 de janeiro de 2013

De repente...

Postado por Marcella às 00:18 0 comentários

Coloquei o Donavon Frankenreiter para tocar enquanto lavava meu cabelo, eis que surge uma enxurrada de palavras para serem escritas (...). Comecei o ano de 2013 com muitas novidades, pra ser mais sincera, tudo é muito novo, ou melhor, sensações diferentes estão vindo em todas as direções. Já fiz planos, planejei viagens, fiz amigos, acolhi um amor, mudei minha trilha sonora, hoje não me falta coragem. Quero me livrar de perspectivas que tirem minha felicidade. Não quero perder o encantamento que tenho pela vida nem a vontade de mudá-la. Não quero ver a partida da pessoa a quem entreguei as coordenadas do meu coração, aquela que dei até pra imaginar um lugarzinho pra gente morar e morrer de amor. Não quero tristeza, preguiça muito menos o medo. Se for chorar, só quero se for de alegria. Não sei o que será de mim se houver partidas, não sei lidar com elas, talvez seja isso que eu deva melhorar só pra poder continuar levando a vida.
 

''Traduzir uma parte na outra parte" Copyright © 2012 Design by Antonia Sundrani Vinte e poucos