Minha princesa embarcou.
Olho para o ônibus - bruto, máquina, inanimado – e, num gesto desesperado e inútil, espero que ele me olhe também: quero um pouco de compaixão: espero um pouco de pena: peço, em dor, que ele quebre: e ela desça: e ela venha: e ela fique: e ela eu.
Nada acontece. O motor do ônibus continua sadio e sei, ali, preso na liberdade de poder ir, que, a qualquer momento, ele vai partir: e ela, inerciana, livre na prisão de poder ir, vai também: ela vai, eu vou: mas nós não vamos: nós nos vamos. E choro.
Não a vejo mais, eu sei. Seus olhos de rio já não estão por mim. Seu riso, se muito, só pode ser escutado por qualquer desespero auditivo que eu tenha. Sua voz se perdeu no murmúrio do mundo. Seu beijo - preso em sua boca, refém de seus lábios, morador da sua face - é uma lembrança viva (só os vivos podem matar, meu avô dizia e agora entendo). Sua presença no mundo está abafada por um choro de criança: menina, negra: que segura, com força e doçura, na mão do pai; olho pra esta menina e vejo, em seu choro, o meu choro: somos, neste espelho de lágrimas, dois esperançosos, dois desesperados, dois sós: ela , criança, sozinha com ele aqui; eu, adulto, sozinho com ela lá.
Ela embarcou.
Cadeira 25.
Janela.
Bomfim.
Não a vejo mais, mas vejo o ônibus onde ela entrou: sei sua estrutura física, sei seu número de poltronas, conheço seu interior: estou próximo dela pela consciência de saber como um ônibus é: meus olhos repousam no mesmo lugar que os dela: posso, em mente, ir até onde ela está sentada: escutamos o mesmo motor: olhamos através da mesma janela: estamos próximos demais para estarmos distantes e distantes demais para estarmos próximo.
Ela não está ali.
Mas ela está lá.
E lá está ali.
Ao meu lado, um rapaz tenta passar a catraca. Ele não tem taxa de embarque. O ônibus está prestes a sair. O segurança diz que não pode fazer nada. O cobrador diz que não pode fazer nada. O ônibus está prestes a sair. O rapaz, desesperado, mostra a passagem, precisa viajar. O segurança não pode fazer nada. O cobrador não pode fazer nada. O rapaz, desesperado, oferece a taxa de embarque em forma de dinheiro. O cobrador aceita, mas só se o dinheiro estiver trocado: e não está. Puxo da minha carteira 4 reais e dou para o cobrador. O rapaz me olha: ele não me conhece, não sabe quem eu sou e sequer imagina por que estou chorando, mas me agradece e vejo, em seus olhos, um brilho: talvez felicidade, talvez alívio, talvez esperança. O rapaz sobe no ônibus. Sorridente, vai viajar, vai reencontrar a namorada, a mãe, qualquer coisa assim, e acena, mais uma vez, pra mim.
Tornar o mundo um pouco melhor para ela.
O ônibus começa a andar, entra no ponto cego da minha vida e some no meu campo de coração.
Caminho para casa e encontro um homem que me pede água. Está com sede. Não tem dinheiro. Pego a garrafa de água mineral que acabei de comprar e dou para ele beber. Vejo, em seu rosto, um vestígio de sanidade, de amor, de família. Parece querer sorrir para mim. Tenho vontade de abraçá-lo, mas, por um vestígio de sanidade, não o faço. Ele se vai. Ele tem água. Ele não tem mais sede. Ele sorriu.
Tornar o mundo um pouco melhor para ela.
Antes de entrar no táxi, vejo um flanelinha tomando chuva. Pergunto onde ele mora e como vai embora. Peço para ele entrar no táxi e vou deixá-lo em casa. Ele desce do carro, toca em minha mão e me diz que é a primeira vez que alguém faz isto com ele. Sorrio ao que ele completa: faz tempo que não me sinto gente.
Tornar o mundo um pouco melhor para ela.
Chego em casa. Entro no quarto. Olho pra cama. Estou triste: posso ver, refletido em minhas cobertas e travesseiros, meus olhos tristes: sinto falta da presença, do sentar, do caminhar, do respirar, do brincar: sinto falta do modo como ela me olha, como ela me toca, como ela me ri.
Ela é uma menina: seus olhos me enobrecem: é como se eu me tornasse mais importante a cada olhar dela que repousa em mim.
Sua inocência, travestida de medo, me sugere doçura, me busca carinho, me adivinha verdade: estou acalentado por poder ser eu mesmo ao lado dela: menino, choro, bobagem.
Seu jeito de se esconder em si precipita abismos em mim: encosto a cabeça na vida, conto até cem e vou encontrá-la mais uma vez: seja lá onde estiver.
Seu carinho, tão doce e calmo, me brisa: viro uma pequena folha a se despreender da árvore: plano em seu toque, em suas mãos, em suas unhas: repouso na cadência da sua respiração: acabo outonando uma primavera.
Volto, então, ao rapaz sem taxa de embarque, ao homem com sede, ao flanelinha e ao poema de Álvaro de Campos que me diz: “todas as cartas de amor são ridículas.”
Releio o que escrevi. Ridículo.
Releio o que escrevi. Amor.
Te coloco em minha cacunda, desço as escadas, sorrimos. Atravessamos o trânsito correndo, pois só tem graça correndo. Brincamos, feito duas crianças, de morder um ao outro. Saímos para almoçar pizza como se fosse a coisa mais normal. Tomamos cada colher de açaí com uma lata de leite condensado. Brincamos e, vez em quando, brigamos de ciúmes. Cuidamos um do outro com calma, carinho e dengo. Rimos de qualquer bobagem sem receio do olhar cético das pessoas. Aprontamos as nossas com medo, sem medo, de sermos escutados. Coloco você em meus braços: minha menina, minha pequena, minha princesa.
Eu quero ser ridículo para sempre ao seu lado.
quinta-feira, 14 de março de 2013
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