Você já observou, por exemplo, uma criança tentando introduzir uma chupeta numa caixa de fósforos ou algo semelhante. Já na adolescência, aprende-se conceitualmente que um recipiente que contém 1.000 centímetros cúbicos não pode conter mais de 1.000 mililitros de água. Mais tarde pode-se pensar a infinitude do espaço. Entretanto, não é possível experimentar concretamente o que o pensamento acabou de conceber ou intuir. Aí está a contradição. O pensamento é livre e ilimitado, as possibilidades de realização no pensado, no entanto, são circunstanciadas e submetidas a mediações.
A consideração desse problema já encheu páginas incontáveis de livros, consumiu o tempo de muitos homens e produziu momentos luminosos na arte em geral, e na literatura e na música popular.
Em seguida, a letra de uma canção de Chico Buarque de Hollanda e de Edu Lobo. Analise nesse poema o paradoxo entre a liberdade e a necessidade, entre infinitude do desejo e a finitude da ação. Veja como autores fazem uma queixa ao Criador, justamente pela desproporção entre o que se quer e o que se pode. Em outros termos, entre liberdade e necessidade, entre contingente e necessário.
Sobre todas as coisas
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus
Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador
E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor
Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador
Ou será que o deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus
Lobo, Edu e Buarque, Chico. Paratodos, 1983

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