quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

procure-se dividir em alguém

Postado por Marcella às 20:56
Sou uma garota matuta de uma ilha construída pelo homem, talvez você não se lembre, por isso re-digo. E, por ter a alma interiorana, me tornei uma deslumbrada vocacional: a folha que cai me deslumbra, o mar e seu poente me deslumbram, a mulher adormecida no coletivo me deslumbra, a comida japonesa e seus hachis me deslumbram, o shopping e sua manada de adolescentes me deslumbram. Meu deslumbramento é tanto, e vai tão longe, que aprendi, copiosamente, a olhar tudo com a doçura de um último olhar: vejo, fotografo, eternizo. Tenho imenso medo das coisas não se repetirem na paisagem das minhas vistas.

Assim, sonhadora, esperançosa e boba, sempre achei que ele viria embalado numa rede - e não num cavalo, e não numa nave, e não envolto em qualquer aura mística cheia de neblina. Embora tenha sido desde menina uma imaginativa obrigatória, daquelas que viajam e pensam coisas exageradas, agora, ainda acometida por nosso encontro, percebo que estava errada: a vida, a felicidade e o amor não passam de uma rede a balançar você. Mais do que cenário e provas e firulas poéticas, cabe na paixão a simplicidade das mãos trêmulas, do coração a dar cambalhotas, do chão de azulejos frios - sem que seja sequer necessária a beleza plástica dos grandes castelos: o amor é simples quando é simplesmente amor.

Aprendi isto na sexta-feira-você. Vi, como se seu rosto fosse uma lousa, seus olhos a me ensinarem coisas do coração. Sua boca, refletida em beijos, me ensinou que a felicidade tem gosto. E seu cheiro, que ela tem cheiro. E sua temperatura, que ela é quente. E seu gemido, que a felicidade geme.

(Isto é o que eu chamo, num daqueles gestos que denunciam o quão ridículo é o apaixonado, de “Vocêlicidade”.)

Naquele dia, que é uma sexta-feira como qualquer outra, ficou tudo claro pra mim: você não é, nem nunca foi nem nunca será, uma pessoa. Vejo-te uma sensação, um suspiro, um poema em que cada parte do seu corpo é um verso a rimar com o meu.

Foi assim que numa destas epifanias sentimentais a quem sujeitos como eu são convidadas, que descortinei você. Tenho plena certeza que falarei, com carinho e saudade, de você aos meus amigos(as). Bêbada me desesperarei infantilmente a enviar mensagens que talvez ou nunca serão respondidas. Na crônica, na redação e na poesia você será sempre uma lembrança a me visitar: incrustada, escrita e até chorada.

Haverá, a partir de agora, em cada linha por mim traçada, alguma palavra a você destinada: e isto será meu segredo, meu riso cúmplice, meu detalhe ímpar. Sempre que alguém ler qualquer coisa minha, estará, numa destas inconsciências da vida, presenciando, sem que saiba, você. Haverá você numa vírgula, num ponto, numa tese, num artigo. Haverá você numa exclamação, num parágrafo, num título. E para que cada palavra possa te cuidar e mimar, elas terão sombra, perfume e calor. Serão palavras confortáveis, quando você precisar de conforto. Serão palavras doces, quando sua tarde pedir um pouco de açúcar. Serão palavras de mar, quando você precisar de ondas. Serão palavras fortes, quando você precisar se reerguer para a vida. Serão palavras, quando você precisar de.

Estaremos juntos, mesmo que você nunca saiba, enlaçados por qualquer esperança minha, por qualquer sonho, por qualquer desejo. Esta será minha peraltice com o mundo: deixarei você visivelmente invisível aos olhos daqueles que arriscarem ler o que escrevo.

Talvez seja eu muito egoísta, ciumenta ou boba. Talvez seja eu pouco mulher, destemida ou corajosa. Talvez seja eu pouco mulher.

Pouco mulher para querer você na completude da minha vida.



                               

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