sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
sendo assim
Numerosos são os homens e as mulheres e as crianças da cidade
Eles correm, apressados, loucos varridos e nunca olham pra trás
Ou pra o lado ou pra dentro ou pra o outro;
Apenas seguem em frente, firmes, como carros desgorvernados
Atropelam sonhos, aleijam amores, passam por cima da vida.
…
O sangue jorra de olhos como os meus
Mera testemunha ocular de um crime que também cometo
Só por ser pessoa como eles.
Somos da mesma raça, seres humanos do mesmo mundo
E carregamos como herança o crime dos nossos irmãos.
…
Não há salvação pra ninguém
Nossa família está toda corrompida
A janta é solitária, o almoço esfriou e o café da manhã não foi posto.
Estamos sós, cada um, cada todos, cada cada
Lutando pela própria vida
Enfrentando as próprias dores e dificuldades e fomes.
…
Matamos pra nos mantermos vivos
Somos animais que pensam
Os piores criminosos
Pois nosso crime é consciente
Há razão no nosso disparo
Há vontade na nossa faca
Há planejamento no nosso soco.
…
Essa é nossa vida
Onde quem não mata, verá morrer
E quem não morre, verá matar.
…
Não somos melhores por sermos passionais
Não somos dignos por sermos racionais
Somos tão ou mais cruéis que os que cometem
O que não tivemos, por hora, coragem de cometer.
…
Nós temos dinheiro, carro, roupas de marca
Sexo pago, cigarro, cervejas e uma gorda conta bancária
Temos filmes, pipocas e coca-cola
Propagandas, bonés e tênis bacanas
Temos maquiagem, vestidos caros, jóias precisosas
Motos arrojadas, comidas finas, móveis nobres
Temos relógios de ouro, canetas de diamante, brincos de peróla
Temos tanta coisa pra comprar
Mas do que adianta, afinal?
Nada que custe dinheiro vale a pena ter.
….
Somos pobres banais
Desacreditados
Desvairados
Perdidos
Não nos olhamos mais
Não nos tocamos mais
Não nos sentimos mais
…
Estamos cada vez mais ricos e o diabo
Comprando carros de luxo
Conquistando mulheres gregas e troianas
Lindas modelos, gostosas e bem torneadas.
Nossa casa é bacana,
Tem quadros raros
Quartos largos
E a maçaneta da porta é de ouro.
…
Somos pobres banais,
Batalhamos tanto por dinheiro
Lutamos tanto pela riqueza
Trocamos o amor por um cheque
E nos tornamos ganância, luxúria e ambição acima de tudo.
…
Agora,
Depois de tanto correr atrás de grana
De riqueza e de fortuna e de vinhos caros
Seremos homens e mulheres e crianças
Vivendo os piores dias da vida
Nas poltronas mais confortáveis da loja.
…
Embaixo de qual cama estão os abraços que a gente deixou de dar?
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