Não se pode negar. Não se quer negar. Não se deve negar. O que se pode é fazer. O que se quer é crer. O que se deve é ter. Para que, com que, o que. Não sei, não posso saber, não quero saber, não devo saber. Mesmo assim, nego; mesmo assim, quero; mesmo assim, posso; mesmo assim; devo. É meu direito e meu dever e meu poder e meu querer transformar você, do meu jeito, ao meu modo, com minhas próprias receitas. São com minhas palavras, e não argila e não massa de modelar e não gesso, que consigo te esculpir, te moldar, te tornar palpável. Não se pode pegar um anjo, a não ser que este anjo seja de porcelana. Não se pode prender um sonho, a não ser que este seja de padaria. Não se pode colocar no colo um sentimento, a não ser que este seja de papel. Por isso, para te tornar palpável e humano e massa, te aprisiono neste texto, onde cada frase é uma barra de ferro a tornar a cadeia real, dura, cinza. Aqui, nestas linhas que capengam, te dou vida, te vislumbro, te transformo; você é do meu jeito para mim, mesmo que não seja para você.
Quero te dar um cantinho quente, confortável e cheio de luz para iluminar seus olhos. Quero que você tenha água fresca, fruta suculenta e uma paisagem linda a bailar em tua janela. Este texto, então, deve ser físico, concreto, construído. Veja nele um refúgio, uma paragem, uma praia. Venha até ele sempre que precisar ficar sozinho. Proteja-se do mundo sendo envolto por cada linha que, sem compromisso ou razão ou motivo, te escrevo. Só entre, gire a chave, e permaneça aqui, bem quieto no silêncio do pensamento, na cadência do sonho, na inconfundível leveza da ideia. Cada frase, se você se esforçar um pouco, será o que você quiser. Não veja a junção de palavras ou o trepidar do teclado ou a construção de termos; vá além do texto, vá além do lido, vá além das palavras; esqueça o que te ensinaram na escola: não te escrevo sobriedades, nem ideias, nem letras e mais letras; cada palavra que aqui faço brotar é uma nova cicatriz a saltar em minha pele; toque, sinta a densidade da marca, a profundidade do corte curado, a tatuagem da queda; percorra seus dedos como um cego que todos nós somos e acaricie cada letra, cada pedacinho de mim, ou de você, que aqui disponho desorganizadamente.
Não sinta medo de ir embora. Não sinta vontade de ficar. Fique ou vá, mas fique e vá sabendo-se aqui. De que adianta não ser totalmente para ser apenas um terço do que se é?
Não, não, não. Isto é fodido demais.
Eu te exijo completamente; eu te obrigo a não se parcelar; eu não te quero gomo, te quero laranja. Quero te esmiuçar completamente; quero ser, para ti, aquele brinquedo do parque: trema em mim, grite em mim, chore em mim e no fim, sorria; não aceito a imparcialidade da frieza, não me dou bem. Meu amor, escolhi não ser constante: decidi por ser eu mesma. Você é o único a quem eu permito me ver; você é o único a quem escolhi falar a verdade, sem tropeços, sem anomalias, sem capas.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
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